Descubra o que é doomscrolling, uma das palavras do ano de 2020

o que é doomscrolling

Doomscrolling é uma destas palavras que nos mostram o quanto a linguagem é um reflexo vivo da sociedade: o termo, usado pela primeira vez em março de 2020 pelo jornalista Kevin Roose, faz referência à compulsão por ler más notícias em redes sociais ou sites de notícias. Doomscrolling foi eleita uma das Palavras do Ano em 2020 pelo Dicionário Oxford, junto com expressões como lockdown e “distanciamento social”. Uma tradução livre poderia ser a expressão “rolagem da desgraça”, um comportamento que muitas pessoas têm manifestado nestes tempos sem precedentes.

Com boa parte do mundo fechada em suas casas, convivendo com medos, incertezas, ansiedades, tédio e mais tempo disponível, procurar por informações e navegar mais nas redes ou sites de notícias pelo celular se tornou, naturalmente, uma válvula de escape.

A princípio, buscávamos notícias porque havia algo grandioso e assustador acontecendo sobre o qual não sabíamos quase nada. Procurar informações era uma forma de nos sentirmos mais seguros. O mecanismo psíquico é: “se eu souber o que está acontecendo, talvez consiga proteger melhor a mim e à minha família.” À medida em que fomos entendendo o tamanho do problema com o qual estávamos (e ainda estamos) lidando, a busca por informações que nos apontassem um caminho seguro para fora do caos foi se transformando em hábito e, depois, em compulsão. Se você se identificou com isso, é importante refletir sobre como isso pode estar impactando a sua saúde psíquica.

O ato de buscar informações é positivo e saudável, mas no doomscrolling este comportamento vai além do ponto em que podemos tirar valor das notícias.

Um exemplo disso seria, por exemplo, ler uma matéria ou post e depois seguir lendo os comentários, que em geral não agregam valor nenhum à discussão, pelo contrário – ativam nossos próprios gatilhos de emoções negativas, aumentando o mal-estar emocional. Além disso, existe um fator temporal: hoje as informações são atualizadas 24 horas por dia. Ou seja, sem autocontrole, podemos seguir nos abastecendo delas indefinidamente.

Contra o discurso do ódio, ativismo empresarial

A propósito, estudos conduzidos durante a pandemia mostraram uma clara correlação entre o aumento da ansiedade e da depressão ligadas ao consumo de notícias relacionadas à Covid-19 e maior tempo gasto em smartphones. As questões que se colocam são: se sabemos que isso não faz bem, porque fazemos isso? E como podemos quebrar este hábito?

Segundo Dean McKay, professor da Universidade de Fordham especializado em comportamentos compulsivos e transtornos de ansiedade, existe um componente evolucionário nisso. Os seres humanos se desenvolveram ao se adaptar aos desafios do ambiente, e isso pode explicar biologicamente a compulsão por informações.

Na verdade, o doomscrolling acontece com tanta força nestes tempos porque ele é uma resposta e uma tentativa não só de controlar o medo, mas também de tentar prever o que está por vir. Junto com as más notícias – que, infelizmente, são maioria neste momento -, nas redes e nos portais também está a esperança de encontrar algum alento: talvez alguma nova vacina esteja chegando, talvez tenham descoberto algum medicamento, talvez o número de óbitos e internações já esteja diminuindo… a tentativa de manter o otimismo e conseguir prever o futuro também ajuda a explicar este comportamento.

O doomscrolling no jornalismo

Outra explicação para o doomscrolling é o próprio design das plataformas sociais, cujos algoritmos destacam os conteúdos com maior engajamento. O jornalismo hoje também atua de forma a reforçar a leitura de más notícias. Títulos chamativos  acionam um senso de urgência e ansiedade no leitor, o que garante mais cliques E, é claro, existe também uma característica humana de fascínio por situações que saem do comum. É a famosa sensação de não conseguir desviar o olhar de um acidente de carro.

Ok, então já entendemos que o doomscrolling mais atrapalha do que ajuda. Mas como parar?

Em primeiro lugar, é fundamental ter consciência deste hábito. Perceber quando excedeu os limites do que precisaria saber por meio das notícias é o primeiro passo para tomar uma atitude diferente. Você pode colocar um timer, ou colocar um horário-limite para a leitura de notícias em redes e portais. Procure ficar distante das notícias por pelo menos duas horas antes de dormir.

Também é muito importante estar consciente de quanto seu comportamento online influencia sua saúde emocional. Sempre que possível, desconecte-se do celular e tire um tempo para atividades no “mundo real”, como exercitar-se, ler um livro, cozinhar, ouvir música. E nestes momentos, procure praticar a atenção plena, ou seja, estar consciente e presente para o que estiver acontecendo exatamente naquele momento, com curiosidade e abertura. Pesquisas mostram que tirar pelo menos um dois momentos por dia, mesmo que breves, para estar plenamente consciente da vida que acontece ao seu redor, pode aumentar a concentração e a sensação de calma, diminuindo a ansiedade.

Por fim, procure ajuda. Converse profissionais da saúde mental e emocional. Aceite suas dificuldades deste momento e procure não se julgar se não conseguir quebrar rapidamente este hábito. Nossa mente é dotada de plasticidade e, assim como às vezes ela cria hábitos negativos, com consciência e alguma dedicação, é possível substituí-los por outros, mais saudáveis.

Michele Colombo é relações públicas, gerente de contas na Race Comunicação e professora de yoga e meditação.